Quando você começa a estudar para concursos depois dos 30 anos, normalmente não existe aquela história bonita de acordar cedo, estudar o dia inteiro e ter como única preocupação cumprir o planejamento.
A vida já está acontecendo. E não para. Tem emprego. Tem boleto. Tem compromisso. Muitas vezes tem casamento, filho e família para cuidar.
Você chega em casa depois de um dia inteiro de trabalho, senta na frente do computador e ainda precisa encontrar disposição para encarar Contabilidade, Direito Tributário, Estatística, TI…
E aí, inevitavelmente, aparece aquela pergunta:
“Será que eu não comecei tarde demais?”
Eu conheço bem essa sensação. Comecei minha preparação para concursos aos 31 anos e fui aprovado aos 34. Por isso, quando converso com um concurseiro 30+, não gosto muito desse discurso de que idade não faz diferença nenhuma. Faz.
A rotina aos 30 ou 40 anos costuma ser bastante diferente daquela que tínhamos aos 20. Porém, diferente não significa necessariamente pior. Os desafios são outros.
Depois dos 30, existem algumas dificuldades adicionais. Ao mesmo tempo, você carrega uma bagagem que pode jogar bastante a seu favor. E talvez a primeira coisa que precise mudar seja justamente a maneira como você enxerga sua própria idade.
A idade e os mitos em torno dela
Existe um medo bastante comum: “Estou velho demais para começar.”
Se você possui 32, 35 ou 40 anos e pretende trabalhar por mais algumas décadas, talvez faça sentido colocar essa decisão em perspectiva.
Imagine que sua aprovação demore três anos. Parece muito quando você olha apenas para esses três anos. Agora pense em quantos anos poderá usufruir daquela carreira depois disso. A conta começa a mudar e a fazer mais sentido.
Outro mito é acreditar que o candidato mais jovem possui necessariamente todas as vantagens.
É verdade que alguém com 22 anos, morando com os pais e sem trabalhar pode ter uma disponibilidade de tempo muito maior. Enquanto você consegue estudar três horas, ele talvez consiga estudar seis. Não adianta fingir que essa diferença não existe. Mas disponibilidade de tempo é apenas uma das variáveis da preparação.
Depois dos 30, você provavelmente desenvolveu características importantes ao longo da vida profissional e pessoal:
- maior maturidade;
- mais responsabilidade;
- capacidade de lidar com frustrações;
- experiência com rotina;
- maior clareza sobre aquilo que deseja.
Você pode ter menos tempo. Mas pode utilizar esse tempo com muito mais consciência e sabedoria.
A realidade do concurseiro 30+ na prática
Talvez a melhor definição seja esta: Você precisa aprender a fazer mais com menos.
Seu dia provavelmente não terá seis ou oito horas disponíveis para estudar. Talvez existam duas a três. Em um bom dia, quatro. No final de semana, você consegue aumentar dar um gás e aumentá-las. E pronto. Essa é sua realidade.
O problema começa quando você pega essas três horas e compara com a rotina de alguém que estuda integralmente. Aí surge a frustração:
“Estou estudando pouco.”
“Desse jeito nunca vou passar.”
“Preciso aumentar minha carga horária.”
Calma.
Se você trabalha oito horas por dia, possui família e outras responsabilidades, sua régua não pode ser a mesma de quem possui o dia inteiro disponível. Isso não significa acomodação. Significa alinhar expectativas à realidade.
Talvez sua preparação demore um pouco mais. E está tudo bem.
Você não precisa ser aprovado o quanto antes. Você precisa conquistar sua vaga. Mesmo que leve mais tempo.
Erros comuns
1) Transformar a idade em uma corrida contra o relógio
Depois dos 30, pode aparecer uma sensação perigosa de urgência e uma exigência de que precisa passar rápido, ou que já deveria estar estabilizado.
Esse tipo de cobrança pode transformar uma preparação longa em uma experiência muito mais pesada do que necessariamente precisa ser.
Existe uma diferença entre possuir senso de urgência e viver desesperado por um resultado. A primeira coisa pode ajudar. A segunda costuma atrapalhar.
2) Tentar reproduzir a rotina de quem não trabalha
Se você trabalha o dia inteiro, talvez não consiga estudar cinco horas líquidas de segunda a sexta. E forçar isso pode custar sono, saúde e, no médio prazo, a própria constância.
A preparação precisa caber na sua vida. Não adianta criar uma rotina fantástica no papel que você consegue cumprir durante dez dias e abandona logo em seguida. É preciso uma carga horária factível e sustentável a longo prazo.
3) Buscar atalhos porque “não tem mais tempo a perder”
Esse erro é especialmente perigoso para o concurseiro 30+.
Como existe uma sensação de urgência, começam a aparecer promessas sedutoras:
“Passe em seis meses.”
“Estude apenas o que mais cai.”
Cuidado.
Um concurso de alto nível continua exigindo construção de conhecimento. Existem estratégias para tornar esse caminho mais eficiente. Atalhos mágicos, não.
4) Sacrificar tudo em nome da aprovação
Outro erro é acreditar que, como começou mais tarde, precisa compensar estudando de maneira insustentável.
Reduzir o sono. Abandonar atividade física. Deixar de ter qualquer momento com a família.
Talvez isso funcione por algumas semanas. Sustentar durante anos é outra história.
Estratégia prática de estudo para o concurseiro 30+
Para quem possui pouco tempo, planejamento deixa de ser apenas importante. Torna-se fundamental.
- Trabalhe com a carga horária que realmente possui
Não monte sua rotina considerando o melhor cenário possível. Monte considerando o cenário normal.
Se consegue estudar duas horas nos dias úteis, comece daí. Se o final de semana permite aumentar a carga, aproveite. O importante é construir uma rotina replicável.
Três horas todos os dias durante muitos meses podem produzir um resultado muito maior do que cinco horas realizadas esporadicamente.
b) Proteja seus melhores horário
Observe em qual período você rende mais.
Para muitas pessoas que trabalham, estudar antes do expediente funciona muito bem. A mente está mais descansada e ainda não sofreu o desgaste do trabalho. Para outras, isso simplesmente não funciona e o período noturno será melhor.
Não existe necessidade de transformar uma preferência pessoal em regra universal. Descubra seu melhor horário e proteja esse período.
c) Utilize o final de semana de maneira estratégica
Quem trabalha pode utilizar sábado e domingo para aumentar a carga horária e avançar um pouco mais. Mas não transforme todo final de semana em uma prova de resistência. A ideia é ganhar volume sem chegar destruído à segunda-feira.
d) Priorize atos de estudo eficientes
Com pouco tempo disponível, você não pode desperdiçar horas apenas para sentir que estudou. Teoria, questões e revisões precisam estar bem distribuídas.
Evite perfeccionismo. Evite ficar eternamente preso em uma aula porque deseja entender absolutamente cada detalhe antes de avançar.
Na preparação para concursos, muitas coisas serão consolidadas com revisões e questões posteriores.
Dicas práticas
a) Reduza a autocobrança, não o compromisso
São coisas diferentes.
Você pode aceitar que sua preparação demorará mais sem utilizá-la como desculpa para estudar menos do que poderia.
O pensamento é:
“Dentro da realidade que possuo, estou fazendo tudo aquilo que está ao meu alcance?”
Se a resposta for sim, apenas continue.
b) Use o trabalho a seu favor
Pode parecer estranho, mas trabalhar também ensina habilidades úteis para a preparação: cumprimento de horários, responsabilidade, disciplina e capacidade de executar uma tarefa mesmo sem vontade. Leve essa mentalidade para os estudos.
Você não precisa acordar motivado. Precisa saber que naquele horário existe uma tarefa para cumprir.
Além disso, ponha-se menos pressão sobre o tempo que levará para ser aprovado. Você tem um emprego que, na medida do possível, paga suas contas. Isso ajuda a reduzir aquela urgência e o imediatismo de uma aprovação.
c) Organize sua vida para reduzir atritos
- Deixe o material preparado;
- Defina antecipadamente o que estudará;
- Afaste o celular ou deixe-o em outro cômodo da casa;
- Tente estabelecer os mesmos horários para estudar.
Se você possui apenas duas horas, gastar vinte minutos decidindo o que fazer é um luxo caro.
d) Cuide do corpo
Depois dos 30, talvez você perceba com mais facilidade que uma noite péssima de sono cobra a conta no dia seguinte, rs.
Atividade física, alimentação adequada e sono precisam fazer parte da estratégia. São pilares que apoiam uma preparação séria e profissional.
Seu cérebro não estuda separado do restante do corpo.
e) Pense no longo prazo
Se a preparação levar três anos, esses três anos passarão de qualquer maneira.
A pergunta é: como você gostaria de estar quando eles passarem?
Minha experiência
Eu comecei a estudar para concursos aos 31 anos. Minha primeira aprovação veio aos 34; a última, aos 35.
Portanto, eu também comecei minha preparação depois dos 30. Não comecei aos 20 com todo o tempo do mundo pela frente.
E minha trajetória também não aconteceu da noite para o dia. Foram mais de quatro anos envolvidos com estudos até alcançar meu objetivo, passando por reprovações e ajustes ao longo do caminho.
Com o tempo, você começa a entender que não precisa vencer essa batalha em seis meses ou no primeiro ano. Precisa é permanecer nela tempo suficiente até ser aprovado. Essa mudança de mentalidade é importante.
Quando você aceita que está construindo algo grande, começa a valorizar mais a constância e menos a pressa. Vale a máxima: tudo que é grandioso, leva tempo.
E existe uma vantagem interessante em começar um pouco mais velho: normalmente você sabe melhor o porquê de estar fazendo aquilo.
Aos 30, muitas decisões já possuem consequências concretas. Você entende melhor o peso de uma remuneração maior. Da estabilidade. Da possibilidade de proporcionar uma vida mais segura para sua família.
Seu propósito pode ficar muito mais claro. E isso ajuda a continuar na luta diária.
Conclusão
A realidade do concurseiro 30+ possui dificuldades próprias.
Você provavelmente terá menos tempo. Mais responsabilidades. Mais contas. Mais cansaço. E talvez uma ansiedade maior para que a aprovação aconteça logo.
Mas sua idade também trouxe coisas que o tempo não compra de outra forma:
- Maturidade.
- Experiência.
- Resiliência.
- Responsabilidade.
- Clareza de propósito.
Por isso, não tente disputar com um candidato de 22 anos para descobrir quem consegue estudar mais horas. Essa competição não faz sentido.
Faça mais com aquilo que você possui. Estude com estratégia. Mantenha a consistência. Fuja de atalhos e falsas promessas. Ajuste suas expectativas à sua realidade e continue caminhando.
Talvez sua aprovação leve um pouco mais de tempo. Pouco importa. Quando ela chegar, haverá também um sabor diferente naquela conquista.
Será a confirmação de que você conseguiu mudar sua trajetória e de sua família mesmo quando a vida já estava cheia de responsabilidades.
Eu comecei aos 31. Fui aprovado aos 34. E tive diversos alunos aprovados depois dos 45.
Você pode começar aos 30, 35, 40 ou depois. Sua idade não precisa ser um peso. Ela pode ser sua força.
Porque você carrega consigo toda a maturidade, a resiliência e a clareza de propósito construídas durante os anos anteriores.
E, se existe uma mensagem que gostaria que você levasse deste texto, é esta:
Nunca é tarde para reescrever sua história.