Quem começa a estudar para a Área Fiscal normalmente tem um objetivo bastante claro: tornar-se Auditor Fiscal.
A remuneração é excelente, a carreira é valorizada e uma aprovação desse nível pode mudar completamente a realidade financeira de uma família.
O problema é que existe uma distância considerável entre decidir estudar para Auditor e estar realmente competitivo para conquistar uma vaga. Estamos falando de uma preparação que pode levar anos.
E a vida não necessariamente vai esperar todo esse tempo, pois há contas para se pagar, família para cuidar e, em alguns casos, um emprego que está drenando praticamente toda a energia que poderia ser utilizada nos estudos.
É justamente nesse cenário que surge uma dúvida bastante comum:
“Será que vale a pena fazer um concurso-escada antes de continuar buscando meu objetivo principal?”
Não existe uma resposta única.
Para algumas pessoas, pode ser uma excelente decisão. Para outras, pode representar um desvio desnecessário e até colocar em risco o projeto principal.
O importante é entender por que você está fazendo essa escolha e o que pretende fazer depois dela.
O concurso-escada e seus mitos
Primeiro, vamos entender o conceito. Chamamos de concurso-escada aquele utilizado como uma etapa intermediária até o cargo que realmente se deseja alcançar.
Imagine alguém cujo objetivo final seja Auditor Fiscal, mas que decide prestar uma prova para Analista Administrativo, Analista Judiciário ou outro cargo que ofereça estabilidade e uma remuneração interessante, com boas condições de trabalho.
Ele não abandonou necessariamente seu objetivo. Está tentando subir um degrau por vez antes de chegar ao topo da escada.
Existe, porém, um mito de que todo concurseiro deveria fazer isso. É algo com que não concordo. Se você possui uma situação financeira relativamente tranquila, consegue estudar com qualidade e tem condições de sustentar uma preparação de médio prazo para a Área Fiscal, talvez interromper seu planejamento para direcionar meses de estudo a outro concurso não seja a melhor escolha.
Agora, imagine uma outra pessoa que precisa urgentemente de uma fonte de renda mais segura. O emprego atual é instável. Ou trabalha dez, onze horas por dia em uma atividade extremamente desgastante. Nesse contexto, a análise muda completamente.
Um concurso intermediário pode proporcionar justamente aquilo que faltava para continuar buscando o objetivo maior: segurança, tranquilidade, renda e melhores condições de estudo.
O concurso-escada na prática
A decisão precisa ser analisada dentro da realidade de cada candidato.
Para mim, existem dois cenários em que o concurso-escada começa a fazer bastante sentido.
O primeiro é quando o aluno precisa de uma fonte de renda segura em um horizonte relativamente menor e sua situação atual não comporta uma preparação intensa e de médio prazo. Talvez ele simplesmente não possa esperar alguns anos até estar competitivo para Auditor Fiscal. Nesse caso, buscar um cargo intermediário pode ser uma decisão racional.
O segundo cenário envolve a qualidade da rotina atual. Imagine alguém trabalhando em uma atividade extremamente estressante, com jornadas muito longas e pouca energia mental ao final do dia. Mesmo que a remuneração seja razoável, aquele trabalho pode estar dificultando enormemente a preparação.
Se um cargo público intermediário permitir trabalhar menos, reduzir o estresse e organizar melhor a rotina, ele pode funcionar efetivamente como um degrau.
A grande questão é que subir esse primeiro degrau não pode fazer você esquecer que existe uma escada inteira pela frente.
Erros comuns
1) Prestar todo concurso que aparece
Esse é o primeiro cuidado. Concurso-escada não significa concurso aleatório.
Se você está estudando para Auditor Fiscal e resolve direcionar sua preparação para uma prova cujo conteúdo guarda pouquíssima relação com aquilo que já estudou, talvez precise interromper seu planejamento durante meses. Nesse caso, o custo pode ser elevado, e até desastroso.
2) Desviar muito cedo da preparação principal
Existe outro cenário bastante comum: o aluno acabou de começar na Área Fiscal e, a cada novo edital publicado, muda de direção. Estuda dois meses para um Tribunal. Depois aparece um concurso administrativo. Em seguida, volta para a Área Fiscal.
No final, passa um ano estudando e não construiu uma base sólida para objetivo nenhum, pulando de galho em galho.
3) Cair na armadilha do conforto imediato
Para mim, esse é um dos maiores riscos do concurso-escada.
Imagine que você esteja insatisfeito com sua situação atual. Estuda porque deseja ganhar R$ 30 mil. Quer proporcionar uma vida melhor para sua família. Sonha em se tornar Auditor Fiscal.
Então, você passa em outro concurso. Agora existe estabilidade, o salário melhorou e as contas ficaram mais tranquilas. Você consegue viajar com regularidade.
Naturalmente, aquela urgência diminui. E começam as negociações internas:
“Hoje estou cansado. Amanhã eu estudo.”
“Meu cargo já é bom.”
“Será que ainda vale a pena continuar?”
Pouco a pouco, os motivos que pareciam tão claros no início da preparação passam a ficar distantes. O conforto pode interromper o projeto.
E não existe problema algum se você conscientemente perceber que está satisfeito com sua nova carreira e decidir mudar seu objetivo. O problema é abandonar aquilo que queria por puro comodismo e perceber, anos depois, que ainda deveria ter tentado.
Estratégia prática: quando devo prestar um concurso-escada?
Existe uma situação que considero particularmente interessante para quem estuda para a Área Fiscal.
Depois de algum tempo de preparação, você começa a acumular uma bagagem bastante ampla. Já estudou, por exemplo:
- Direito Constitucional;
- Direito Administrativo;
- Português;
- Raciocínio Lógico;
- eventualmente AFO, Administração Pública e outras disciplinas.
De repente, aparece um concurso para Analista Administrativo de algum órgão. Ou para Analista Judiciário de um Tribunal de Justiça. Ou Analista de um Tribunal Regional do Trabalho.
Quando você olha o edital, percebe que uma parcela relevante do conteúdo já foi estudada. A situação se torna bastante diferente daquela de abandonar completamente a Área Fiscal para começar outro projeto do zero.
Nesse caso, pode fazer sentido aproveitar a bagagem construída e realizar aquela prova. Mas eu faria algumas perguntas antes:
- Quanto do edital eu já domino?: quanto maior a interseção com sua preparação atual, menor tende a ser o custo do desvio.
- Quanto tempo precisarei retirar da Área Fiscal? Uma coisa é acrescentar algumas disciplinas durante um período curto. Outra é abandonar completamente o planejamento por quatro ou cinco meses.
- Esse cargo realmente melhora minha realidade? Essa pergunta é fundamental. Se você for aprovado, terá uma situação financeira melhor? Mais estabilidade e menor carga de trabalho? Mais energia para estudar? Se praticamente nada mudar, talvez o benefício do concurso-escada seja pequeno.
- Estou disposto a continuar estudando depois da nomeação? Essa é a pergunta que muita gente esquece. Passar é uma parte do projeto. Continuar no objetivo principal depois de passar é outra.
Dicas práticas
a) Procure editais com boa interseção
Quanto mais matérias você conseguir aproveitar, melhor. Seu conhecimento acumulado precisa trabalhar a seu favor.
b) Não transforme cada edital em uma oportunidade imperdível
Nem toda prova precisa ser feita.
Às vezes, a melhor decisão é simplesmente continuar estudando para seu objetivo principal.
c) Defina previamente o que acontecerá depois da aprovação
Antes mesmo da prova, deixe claro para você:
“Se eu passar, esse cargo será meu objetivo final ou apenas uma etapa?”
Essa definição ajuda bastante a combater o comodismo posteriormente.
d) Se assumir, reorganize rapidamente sua rotina
Os primeiros meses em um novo cargo naturalmente exigem adaptação.
Mas, se o objetivo continua sendo Auditor Fiscal, procure retomar os estudos assim que a nova rotina estiver minimamente estabilizada.
Não deixe passar meses e meses para depois tentar recomeçar.
e) Não tenha vergonha de subir um degrau por vez
Existe uma glamourização desnecessária de determinadas trajetórias.
“Fulano começou do zero e passou direto para Auditor.”
Excelente. Bom para ele. Mas essa não precisa ser a sua história.
Se você precisa conquistar primeiro um cargo que pague melhor e ofereça estabilidade para depois buscar algo maior, faça isso.
O objetivo é melhorar sua vida, não construir a história mais bonita para contar em uma entrevista de aprovado.
Minha experiência
Durante minha própria preparação, chegou um momento em que eu já possuía uma bagagem considerável das disciplinas da Área Fiscal.
Eu já havia estudado durante alguns anos e, naturalmente, vários conteúdos começaram a aparecer também em editais de outras áreas.
Foi nesse contexto que resolvi prestar o concurso para Analista Administrativo do Ibama. Como teste, mesmo.
Não abandonei minha preparação para Auditor para começar algo completamente diferente. Sequer desviei minha preparação. A ideia também era me testar e aproveitar uma quantidade relevante de disciplinas que eu já havia estudado.
Fiz a prova e consegui ser aprovado. No final, não assumi o cargo.
Mas aquela experiência mostrou algo interessante: a bagagem construída durante uma preparação robusta começa a abrir outras portas pelo caminho.
Você pode estar estudando para um objetivo maior e, em determinado momento, perceber que já possui condições de competir em concursos que alguns anos antes exigiriam uma preparação praticamente do zero.
Isso também é patrimônio construído durante os estudos.
Conclusão
Então, afinal, concurso-escada vale a pena?
Depende muito mais da sua realidade do que de uma regra geral.
Se você possui condições financeiras e uma rotina adequada para continuar buscando diretamente o cargo de Auditor Fiscal, talvez não exista necessidade de criar uma etapa intermediária.
Por outro lado, se precisa de estabilidade financeira em um prazo menor ou está preso em um trabalho que consome seu tempo e sua energia, um concurso-escada pode ser uma excelente estratégia. Principalmente quando você consegue aproveitar boa parte da bagagem já construída.
Só existe um cuidado fundamental: não permita que o degrau faça você esquecer o topo da escada.
Se o seu objetivo continua sendo Auditor Fiscal, lembre-se dos motivos que fizeram você começar. A estabilidade intermediária deve servir para melhorar as condições da caminhada, e não necessariamente para encerrá-la.
Mas também não existe vergonha alguma em perceber, depois da aprovação, que aquela nova realidade já satisfaz seus objetivos. No fundo, a decisão precisa ser consciente e tomada depois de muita reflexão.
No final das contas, o concurso-escada é apenas uma ferramenta. Para alguns, será um desvio desnecessário. Para outros, será justamente o degrau que permitirá continuar subindo.
O importante é saber qual problema você pretende resolver ao pisar nele e para onde deseja caminhar depois.