Como escolher qual concurso prestar: critérios objetivos para decidir

Quem estuda para a Área Fiscal há algum tempo conhece bem esse fenômeno.

Sai um edital novo, com boa remuneração e um caminhão de vagas. Começam as postagens nas redes sociais, os professores falando sobre a oportunidade, os grupos de Telegram fervendo e aquela sensação inevitável: “Será que eu deveria fazer essa prova?”

De repente, um concurso que você sequer cogitava prestar duas semanas atrás parece ter se transformado na oportunidade da sua vida. Sim, é natural.

O problema começa quando o candidato passa a tomar decisões importantes baseado exclusivamente nessa empolgação. Afinal, escolher um concurso significa também decidir onde você colocará boa parte da sua energia nos próximos meses.

Em muitos casos, significará entrar em um Pós-Edital intenso, alterar sua rotina, estudar ainda mais nos finais de semana, abrir mão temporariamente de algumas atividades e direcionar praticamente toda a preparação para aquela prova.

Por isso, antes de entrar de cabeça, gosto de fazer uma análise um pouco mais fria.

Essa prova realmente faz sentido para você?

Todo bom edital é uma oportunidade?

Não necessariamente. Um excelente concurso pode ser uma péssima oportunidade para você naquele momento.

Essa diferença é fundamental.

Imagine um concurso com excelente remuneração, muitas vagas e uma carreira extremamente interessante. Parece perfeito.

Agora imagine que 40% do conteúdo programático seja formado por disciplinas que você nunca estudou. E a prova acontecerá daqui a três meses. Você trabalha oito horas por dia. E, para completar, justamente as matérias com maior peso são alguns dos seus maiores pontos fracos.

O concurso continua sendo excelente. Mas talvez a oportunidade não seja tão boa para você.

Por outro lado, pode aparecer uma prova menos badalada cujo edital possui enorme aderência ao seu planejamento, banca que você conhece, matérias importantes entre seus pontos fortes e uma estrutura de prova favorável à sua preparação.

Essa segunda oportunidade pode oferecer condições muito melhores de competitividade.

Por isso, precisamos separar duas perguntas:

“Esse concurso é bom?”

e

“Esse concurso é bom para mim, considerando o estágio atual da minha preparação?”

São análises completamente diferentes.

Como escolher o concurso na prática

  1. Aderência ao seu planejamento atual

Pegue o edital e compare com aquilo que você já vinha estudando.

  • Quantas disciplinas já fazem parte do seu Planejamento?

  • Quanto do conteúdo programático você já percorreu?

  • Quantas matérias precisariam ser iniciadas praticamente do zero?

Quanto maior a interseção entre sua preparação anterior e o novo edital, melhor tende a ser o cenário.

Isso é especialmente importante porque uma preparação para Auditor Fiscal é construída ao longo de bastante tempo.

Você acumulou conhecimento durante meses ou anos. xO ideal é que o concurso escolhido permita utilizar essa bagagem, e não obrigue você a começar praticamente uma nova preparação.

  1. Estrutura e distribuição da prova

Você não deve olhar apenas para a lista de disciplinas. Olhe também para como os pontos estão distribuídos.

Imagine dois candidatos com o mesmo percentual do edital estudado. O primeiro possui como pontos fortes justamente as disciplinas de maior peso. O segundo possui grandes dificuldades nessas matérias e domina algumas disciplinas que representarão poucos pontos.

Apesar de ambos terem estudado uma quantidade semelhante do edital, suas condições de competitividade podem ser bastante diferentes.

Por isso, analise:

a) quantidade de questões por disciplina;

b) peso das matérias;

c) eventuais mínimos por bloco ou disciplina;

d) distribuição entre conhecimentos básicos, gerais e específicos;

e) existência e importância da prova discursiva;

f) características da banca.

A estrutura da prova pode favorecer ou prejudicar bastante o encaixe daquele concurso com seu perfil atual.

  1. Quantidade de conteúdo novo

Esse é um dos pontos que mais considero na hora de avaliar se determinado aluno deveria entrar em Pós-Edital.

Quanto ainda precisa ser aprendido do zero?

Quanto maior a quantidade de disciplinas e assuntos inéditos, mais difícil tende a ficar a missão.

Não porque seja impossível aprender conteúdo novo depois da publicação do edital. Naturalmente, algum conteúdo novo quase sempre aparecerá.

O problema é quando o Pós-Edital deixa de ser uma fase de consolidação e vira uma corrida desesperada para aprender metade do conteúdo programático.

Aí a preparação começa a ficar atropelada.

Erros comuns

  1. Escolher pela remuneração e número de vagas

Esses fatores importam. Claro que importam!

Mas não deveriam ser analisados isoladamente.

Duzentas vagas podem chamar bastante atenção. Porém, se sua preparação estiver muito distante daquilo que será cobrado, esse número sozinho não fará você ficar competitivo e te deixar apto a disputar uma vaga.

  1. Entrar em todo pós-edital que aparece

Esse comportamento pode destruir uma preparação de longo prazo.

Sai um edital e você muda tudo. Três meses depois, faz a prova.

Na semana seguinte, aparece outro concurso. Muda novamente. Depois outro.

Quando percebe, passou um ano inteiro vivendo de pós-Edital em pós-Edital, aprendendo conteúdos específicos e que serão cobrados somente naquele certame às pressas e sem consolidar sua base.

Nem todo edital publicado precisa virar o seu edital.

  1. Subestimar a quantidade de teoria ainda necessária

Esse erro é bastante comum.

O candidato olha para quinze tópicos novos e pensa: “Dou um jeito nisso depois do edital.”

Só que existe um custo.

O tempo gasto aprendendo seis assuntos completamente novos é o mesmo tempo que deixa de ser utilizado para revisar matérias já estudadas, resolver questões e fechar lacunas.

E existe outro problema: conteúdos estudados com pressa e pressão tendem a ter menos oportunidades de revisão e consolidação antes da prova.

  1. Ignorar a própria rotina

Não adianta elaborar um planejamento de pós-Edital de quarenta horas semanais se sua vida comporta vinte.

A matemática não fecha.

A estratégia precisa considerar o candidato real, e não aquele que existe na planilha. E claro, com condições mínimas de acompanhá-lo.

Estratégia prática

Analise o pós-edital antes de entrar nele

Em minha visão, um bom Pós-Edital deveria ser predominantemente uma fase de consolidação.

É o momento de aumentar bastante o volume de questões, revisar conteúdos, atacar pontos fracos, estudar legislações específicas e fechar as últimas lacunas relevantes.

Claro que algum conteúdo teórico novo pode aparecer. Isso é normal.

O sinal de alerta surge quando existem muitas disciplinas novas e uma parcela muito grande do conteúdo ainda precisa ser aprendida pela primeira vez.

Nesse cenário, você passa boa parte do pós-Edital tentando simplesmente conhecer aquilo que será cobrado.

E ainda precisa revisar. Fazer milhares de questões. Aprender as nuances da banca. Treinar o tempo de prova. Estudar legislação específica. Eventualmente preparar discursivas.

É coisa demais para pouco tempo.

Por isso, antes de decidir, faça uma espécie de auditoria do edital.

Separe o conteúdo em três grupos:

a) conteúdo dominado: matérias e assuntos que já foram estudados e apresentam bom desempenho;

b) conteúdo conhecido, mas com lacunas: assuntos que precisam de revisão, questões e reforço;

c) conteúdo novo: aquilo que ainda exigirá estudo teórico relevante.

Quanto maior estiver o primeiro grupo e mais administráveis forem os outros dois, mais interessante tende a ser aquela oportunidade.

Dicas práticas

a) Calcule o tempo real disponível até a prova

Não olhe apenas para a quantidade de semanas. Olhe para suas horas.

Uma pessoa que possui 35 horas semanais disponíveis para um pós-edital está em uma situação diferente de alguém que consegue estudar 15 horas.

Pergunte-se: “Eu consigo sustentar o ritmo necessário até essa prova?”

O pós-edital normalmente exige uma intensidade maior.

Talvez seja necessário reduzir temporariamente alguns compromissos, utilizar melhor os finais de semana e deixar determinados aspectos da rotina em segundo plano.

Para quem possui família, uma boa rede de apoio pode fazer bastante diferença nesse período.

b) Analise seus pontos fortes diante dos pesos da prova e considere as particularidades da banca

Não basta verificar se é bom em Contabilidade Geral e Avançada.

Questione o quanto a disciplina de Contabilidade representa naquela prova.

Faça isso com as principais disciplinas.

Uma estrutura que valoriza justamente suas melhores matérias pode tornar o concurso mais interessante. E o contrário também merece atenção.

Analise também a sua familiaridade com a banca organizadora escolhida para aquela prova. Se você estudou durante bastante tempo resolvendo questões da FCC e aparece uma prova da FCC, existe uma proximidade construída.

Se a banca muda, talvez seja necessário adaptar sua preparação ao novo padrão. Isso não significa deixar de prestar uma prova por causa da banca. Significa colocar esse custo de adaptação nas suas ponderações.

c) Pense na localidade

Esse critério é subestimado.

Você se imagina morando naquele Estado? Consegue cogitar construir sua vida naquela cidade?

Não precisa ser o lugar dos seus sonhos. Mas precisa existir alguma abertura real para assumir o cargo caso seja aprovado.

E eu teria bastante cuidado ao construir essa decisão baseada exclusivamente em condições atuais de trabalho remoto.

Regimes de trabalho podem ser alterados de acordo com as regras e a conveniência da Administração. A qualquer momento.

Se sua disposição para assumir depende exclusivamente da possibilidade de permanecer em outra cidade trabalhando remotamente, vale analisar esse risco com bastante atenção.

c) Não confunda medo com falta de competitividade

Existe também o outro extremo.

Alguns candidatos já possuem uma excelente preparação, boa aderência ao edital e desempenho competitivo, mas sempre encontram um motivo para esperar a próxima prova.

“Tem uma disciplina que não terminei.”

“Minha Estatística ainda não está perfeita.”

“Talvez eu esteja melhor daqui a seis meses.”

Cuidado.

Você dificilmente chegará a uma prova dominando absolutamente tudo.

Em algum momento, é necessário entrar no jogo.

Minha experiência

No decorrer da minha preparação, fui percebendo que a decisão de prestar determinada prova precisava considerar muito mais do que simplesmente a existência de um edital aberto.

Conforme sua preparação avança, você acumula uma bagagem que começa a tornar algumas oportunidades muito mais interessantes do que outras. E isso muda completamente sua análise.

Você começa a olhar para um edital e pensar:

“Quanto daquilo que eu construí até aqui consigo levar para essa prova?”

Essa pergunta é importante.

Porque uma preparação longa precisa começar a trabalhar a seu favor.

Com o passar do tempo, você não está mais começando cada concurso do zero. Leva consigo milhares de questões resolvidas, disciplinas consolidadas, revisões, erros corrigidos e experiência de prova.

Por isso, passei a enxergar cada novo edital não apenas como uma oportunidade, mas como um encaixe.

Às vezes, o encaixe é excelente. Em outras, apesar de o concurso parecer maravilhoso, simplesmente não é o melhor momento.

E saber deixar uma boa oportunidade passar também faz parte de uma preparação estratégica.

Conclusão

Então, como escolher qual concurso prestar?

Eu evitaria decidir pela empolgação do edital. Coloque alguns critérios objetivos na mesa:

a) quanto do edital você já estudou;

b) quantas disciplinas novas precisarão ser iniciadas;

c) como os pesos e questões estão distribuídos;

d) se suas matérias fortes são valorizadas naquela prova;

e) quanto tempo existe até a prova;

f) quantas horas você realmente conseguirá estudar nesse período;

g) qual adaptação será necessária para a banca;

h) se você realmente considera assumir e morar naquela localidade.

Depois, olhe para o conjunto.

Não existe necessariamente um percentual mágico que determine fazer ou não uma prova.

Existe contexto. Mas existe uma ideia que considero bastante importante:

quanto mais avançado estiver seu conhecimento antes da publicação do edital, maior será sua capacidade de utilizar o pós-edital para aquilo que ele deveria fazer melhor: transformar conhecimento acumulado em desempenho de prova.

Revisar. Resolver milhares de questões. Fechar lacunas. Conhecer profundamente a banca. Treinar execução de prova. Consolidar aquilo que já foi construído.

Se você passa praticamente todo o pós-edital aprendendo conteúdos novos às pressas, sobra pouco espaço para fazer tudo isso.

Por isso, quando aparecer o próximo edital e bater aquela vontade de largar tudo para entrar nele, segure a empolgação por alguns minutos.

Abra o edital. Abra seu planejamento. Olhe para sua rotina. Faça as contas.

Escolher bem uma prova também é uma decisão estratégica de estudos.

Às vezes, a decisão correta será entrar com tudo.

Em outras, será continuar construindo sua base e esperar uma oportunidade em que você realmente consiga chegar para brigar por uma vaga.

O importante é que a escolha seja feita pela sua preparação. Não pela ansiedade de ver mais um edital passando na sua frente.

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